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Posse,24/02/2026

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Goiás aposta no pequi sem espinho e transforma fruto do Cerrado em lavoura comercial

Novas variedades desenvolvidas pela pesquisa pública permitem produção planejada, reduzem riscos no consumo e aumentam a renda no campo


Goiás aposta no pequi sem espinho e transforma fruto do Cerrado em lavoura comercial

Durante décadas associado quase exclusivamente ao extrativismo, o pequi começa a viver uma nova fase no Cerrado goiano. Com o avanço do pequi sem espinho, o fruto símbolo da região deixa de depender apenas da colheita em áreas nativas e passa a integrar um modelo de lavoura comercial planejada, com produção previsível e maior retorno econômico para o produtor rural.

A mudança é impulsionada por novas variedades desenvolvidas pela Embrapa Cerrados, em parceria com a Emater-GO, após anos de pesquisas e seleção genética. O principal diferencial está na ausência dos espinhos no caroço, o que facilita a extração da amêndoa, aumenta a segurança no consumo e torna o fruto mais atrativo tanto para o consumidor final quanto para a indústria alimentícia.

Mesmo com a modificação estrutural, o pequi sem espinho mantém as características que fizeram do fruto um símbolo da culinária regional: sabor marcante, coloração intensa e aroma característico. A nova variedade ainda apresenta polpa mais grossa e suculenta, ampliando o rendimento industrial e o aproveitamento culinário, seja no consumo in natura ou no processamento.

Outro ponto estratégico do cultivo é o uso de áreas de reserva legal. Desde os anos 2000, o plantio de pequi vem sendo realizado principalmente nesses espaços que o produtor é obrigado a preservar por lei. Na prática, a iniciativa transforma o Cerrado em uma área de produção sustentável, conciliando conservação ambiental e geração de renda no campo.

O avanço da cultura já se reflete no mercado de mudas. Em Goiás, o produtor e viveirista Mauro Filho, sócio da Plant Roots Viveiro Ambiental, comercializa entre 60 mil e 70 mil mudas de pequi sem espinho por ano, o que evidencia o interesse crescente dos agricultores pela cultura. Cada muda é vendida por cerca de R$ 150, valor aproximadamente dez vezes superior ao do pequi comum.

Além da produção de mudas, Mauro também investe no cultivo comercial. Ele mantém uma lavoura com 4 mil pés de pequi sem espinho, sendo que 2 mil já estão em produção. Segundo o produtor, a variedade é mais precoce, iniciando a produção a partir do quarto ano, com boas safras bienais, o que facilita o planejamento financeiro da atividade.

No Mato Grosso, os plantios comerciais também ganham escala. Em municípios como Gaúcha do Norte, já existem cerca de 60 hectares cultivados, com pomares que entraram em produção nos últimos dois anos. A maioria dos projetos utiliza mudas enxertadas, tecnologia que reduz o tempo de entrada em produção e garante maior uniformidade das plantas e dos frutos.

Em condições adequadas de manejo, o pequi começa a produzir entre quatro e cinco anos, com estabilização produtiva a partir do oitavo ano. Uma árvore adulta pode render, em média, quatro a cinco caixas de 30 quilos por safra. Apesar da fama de planta rústica, especialistas alertam que a cultura exige cuidados nos primeiros anos, como controle de pragas, adubação correta e acompanhamento técnico.

Mesmo com os avanços do cultivo comercial, a produção nacional de pequi ainda é majoritariamente extrativista. Minas Gerais lidera o ranking brasileiro, com 42,5 mil toneladas colhidas, quase todas provenientes de áreas nativas. Já Goiás e Mato Grosso produziram juntos cerca de 3,4 mil toneladas em 2024, segundo dados do IBGE, volume que começa a incorporar áreas cultivadas.

A expectativa de pesquisadores e extensionistas é que, nos próximos anos, o cultivo tecnificado do pequi sem espinho ganhe mais espaço no Cerrado, reduzindo a pressão sobre áreas nativas e fortalecendo uma cadeia produtiva mais organizada, rastreável e integrada à agroindústria. Além do consumo in natura, o fruto é usado em conservas, e o óleo do pequi serve como matéria-prima para a indústria cosmética, de sabonetes e até de produtos medicinais.
















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